Brokeback Mountain, quando chegou aos cinemas, provocou uma catarse naquele homem gay que vivia no armário e adotava uma masculinidade performada. A história de amor entre dois homens no ano de 1963, revela um sabor amargo do que é viver um romance homoafetivo no sigilo. Em uma época em que a homofobia recreativa era comum na tv aberta, Ennis Del Mar e Jack Twist surgem para desafiar a masculinidade tradicional e fazer história no cinema.
Afinal, o filme revela uma figura nunca antes explorada na telona, o caubói vulnerável. Uma história que não apenas compartilha a dor e culpa de um público específico, homens gays ou bissexuais, como ilustra um cotidiano de dor e culpa de homens que nunca aprenderam como amar. Inclusive, enquanto escrevia essa introdução, veio muito forte uma música da banda Jota Quest, “Amor Maior”, que resumia um pouco desse grito silencioso dos protagonistas.
É preciso amar direito. Um amor de qualquer jeito. Ser amor a qualquer hora. Ser amor de corpo inteiro. Amor de dentro pra fora. Amor que eu desconheço
A verdade é que homens, desde a infância, são ensinados a serem fortes, resistentes e a anular suas emoções, mas não aprendem como amar de verdade. Um exemplo disso, são as tentativas frustradas de conversar sobre a relação. Em vez de buscar uma solução para manter uma relação equilibrada, muitos acabam se defendendo ou se colocando como vítima, devido a ausência de inteligência emocional.
E ao entrar em um viés LGBTQIAPN+, onde desde cedo o homem é cobrado a assumir um papel rígido e sem afeto, a cabeça buga quando precisa lidar com sua essência e descobre que essa cartilha nunca fez parte de sua vida. É nesse momento que os sentimentos surgem como uma bomba prestes a explodir dentro de si.
Como quando Ennis Del Mar (Heath Ledger) ao se despedir de Jack Twist (Jake Gyllenhaal) pela primeira vez tem um ataque de choro, e se esconde para ninguém ver sua vulnerabilidade. Ao mesmo tempo que sente a dor da despedida, ele sente raiva e culpa por não poder mudar este sentimento que carrega dentro de si. Desconstruindo todo aquele arquétipo do caubói rude e autossuficiente.
Esse cuidado em abordar sobre masculinidade e sexualidade não só rendeu vários prêmios da indústria cinematográfica, como foi aclamado mundialmente. Assim como também despertou a ira dos membros conservadores do Oscar 2006. Segundo eles, Brokeback Mountain mexeu em uma figura mítica criada no século XIX nos EUA.
Inclusive, Diana Ossana em um podcast, uma das roteiristas do filme, afirma sem medo que a homofobia foi a grande responsável pelo filme ter perdido para Crash: No Limite (2005), na época — a diva colocou 3kg de Xereca na mesa. Gosto assim.
Embora o tempo tenha dado o status que o filme merece, esse boicote reverbera até hoje. E não vou muito longe, em 2022 tivemos uma espécie de Deja Vú com o Ataque dos Cães (2021). Assim como Brokeback Mountain, ele também era o preferido para levar o prêmio de melhor filme no Oscar, mas também sofreu boicote e foi assaltado por No Ritmo do Coração (2021). Será que já não passou da hora de duvidar da credibilidade desta premiação?
Mas o que esperar de uma premiação que é machista e xenofóbica, comandada por velhos ricos e brancos, né?
Revoltas à parte, acho que nada mais justo que falar dele do jeito que ele merece. Afinal, Precisamos falar sobre sentimentos e identificação que Brokeback Mountain com o homem gay ou bissexual, e por que ele é um marco na cultura pop queer.
Vem comigo, porque nosso Devaneios Objetivos está On!

O Segredo de Brokeback Mountain (2005) | Histórias Diferentes, Experiências em Comum
Você lembra quando foi a primeira vez que você assistiu Brokeback Mountain? Qual sentimento o filme despertou em você? Sem dúvida é algo difícil de mensurar, porque falar de sentimento é algo subjetivo — pessoal e intransferível, como costumo dizer. Mas conforme você compartilha, você percebe que apesar de cada um possuir histórias diferentes, todos tivemos uma experiência em comum.
Quando assisti o filme pela primeira vez, aqui em Belém do Pará ainda era muito comum os chamados cinemas de rua. Nessa época, em 2005, eu ainda não tinha saído do armário e, assim como no filme, vivia um relacionamento no sigilo. Então ao ver os conflitos, dilemas e culpas dos protagonistas que viviam um amor escondido, e perdiam a oportunidade de vivê-lo de corpo e alma, eu pude me enxergar na história.
Um fato curioso, que não esqueço, foi a reação da plateia diante dos conflitos entre os dois caubóis. Durante a sessão ouvia muitos sussurros dizendo: “Nossa… eu já passei por isso”. O filme não só mostrou um cotidiano próximo da realidade de um homem gay ou bissexual, como conversava com seu eu, ao mostrar nas telonas a jornada de sobrevivência de um LGBTQIAPN+.
Até hoje, ao rever o filme, ele consegue me arrancar umas risadas bobas e gostosas. Como quando Jack Twist tenta chamar a atenção de Ennis, com uma conversa fiada sobre seu nome — estilo aquelas cantadas de balada. É uma delícia ver que Jack é tão seguro de si que não se importa se está desenrolando um papo meia-boca, apenas quer ser notado pelo crush. Por isso não julgo. Quem nunca, né?
E o que dizer das demonstrações de afetos atropeladas entre os dois logo no início? Quantas vezes Ennis Del Mar montou um triplex na cabeça de Jack, o deixando confuso em relação a seus sentimentos por ele? Vale lembrar que apesar dos dois compartilharem um desejo em comum, cada um possui bagagens diferentes.
Enquanto Ennis Del Mar teve uma infância difícil, onde sua família perdeu tudo o que tinha. Jack Twist é um caubói de rodeio sonhador que deseja ficar rico para viver a vida do seu jeito. Esse choque de realidade torna-se uma pedra no sapato entre os dois, porque além de empurrarem o relacionamento com a barriga, os dois nunca chegam em um consenso — se contentando apenas com aquela tal micro dose de afeto.
Mas o que dizer quando Ennis não consegue esquecer o chá que o Jack deu nele? O boy não foi só laçado, como não queria mais largar o osso. Ennis bem que tentou ignorar e resistir no início, mas o desejo falou mais alto que foi correndo até a barraca pedir desculpas. Jack não só o desculpa como coloca o boy para dormir em seu peito. É nesse momento que Ennis sente pela primeira vez uma paz e segurança que nunca viveu na vida.
Lembra que no post de Heated Rivalry comentei que dormir de conchinha quebra o gelo? Já podemos atualizar a lista de bálsamos de um LGBTQIAPN+: dormir no peito do Crush. Tô errado? Me conta se tem coisa melhor para a gente aumentar essa lista. Combinado?
Mas o que fazer quando estes sentimentos não são administrados e o relacionamento não demonstra qualquer reciprocidade? Você acha que à longo prazo essas atitudes podem se tornar um relacionamento tóxico em doses homeopáticas?
Pense sobre isso, enquanto a gente analisa o próximo tópico.

Um Amor, Um Lugar | Discreto e Fora do Meio
Quando Ennis Del Mar diz a Jack Twist que: “Se você não tem como suportar. Você tem que entender”. Mostra o quanto o relacionamento de um homem gay inexperiente, e que não sabe lidar com seus afetos, não existe reciprocidade. Afinal, quando apenas um lado que se desdobra, adapta sua rotina, respeita as limitações do outro e não é correspondido, vários questionamentos começam a martelar em sua cabeça. Será que viver um relacionamento no sigilo é sinônimo de sofrimento?
Como falei anteriormente, Jack Twist é um homem sonhador, atrás de sua independência financeira, até que Ennis Del Mar cruza seu caminho e muda sua rota, ao estilo de “Um Amor, Um Lugar” dos Paralamas do Sucesso que diz:
Levante as mão para o céu. E agradeça se um dia encontrar um amor, um lugar pra sonhar pra que a dor possa sempre mostrar Algo de bom.
Ao mesmo tempo que ele encontra alguém que acelera seu coração e causa aquele frio na barriga, toda vez que os dois se encontram, ele também se machuca com o sabor amargo do amor proibido. A falta de posicionamento de Ennis em encontrar uma solução para viverem juntos, acaba soando um pouco tóxica.
Um exemplo disso, é quando Jack dirige horas a fio para comemorar o divórcio de Ennis. O fio de esperança de finalmente ficarem juntos sem empecilhos, cresce em seu peito. Mas tudo não passava de mais um sonho que deu errado, porque Ennis não planejou nada e queria que Jack entendesse seu lado, mais uma vez. A cena dele pegando a estrada e chorando ao volante é de cortar o coração. Descobrir que não existe uma reciprocidade com a pessoa com quem você está é um soco no estômago — dói e machuca profundamente.
No post de Heated Rivalry (2025) eu comentei que muitos relacionamentos no sigilo tem uma tendência a desenvolver comportamentos tóxicos, principalmente quando um dos lados passa uma imagem fria e insensível. Como Ilya Rozanova (Connor Storrie), que assim como Ennis Del Mar, ele foi criado dentro de uma estrutura rígida e sem afeto. Mas diferente de nosso caubói, ele corre atrás de Shane Hollander (Hudson Williams) quando percebe que estava perdendo a oportunidade de ser feliz.
É importante lembrar que a história de Brokeback Mountain acontece em 1963 e Heated Rivalry em 2013. Apesar de serem em épocas diferentes, as duas retratam a luta pela sobrevivência de um LGBTQIAPN+ em uma sociedade homofóbica.
Inclusive, um dos maiores medos de Ennis Del Mar é ser vítima de crime de ódio por sua orientação sexual, algo que continua presente nos dias de hoje, em que o crime de homofobia é equiparado ao crime de racismo, inafiançável. Infelizmente o número de casos vem aumentando, porque a justiça e as autoridades não cumprem com a lei, como os casos abaixo:
- Um adolescente de 17 anos vítima de injúria homofóbica e espancado em Manaus em 2024.
- Um influencer do interior de São Paulo, em 2025, foi agredido e teve o patinete que usava para trabalhar quebrado.
- Um rapaz vítima de homofobia em uma padaria em São Paulo, em fevereiro de 2024.
- O caso da Justiça do Pará que determinou medida cautelar a um rapaz vítima de homofobia, perseguições e ameaças pelo próprio pai
Por isso, é muito comum homens gays e bissexuais que cresceram na década de 1980 e 1990, terem dificuldades em sair do armário e viver sua identidade. Preferem performar um personagem “discreto e fora do meio”, para não serem alvo de violência físicas e psicológicas.
Como Randall Malone (David Harbour) que é casado com Lashaw Malone (Anna Faris), uma amiga da esposa de Jack, Lureen Twist (Anne Hathway). Ele não só vive uma vida dupla, como não se priva de viver um romance no sigilo. Tanto que ele chama Jack para irem a uma cabana distante, para assistir Netflix — pelo visto essa proposta atravessa séculos no mundo queer hehe. O convite não só o deixou balançado, como o deixou em dúvida se ele deveria perder mais essa oportunidade. Quem somos nós para julgar, né verdade?
Afinal, Ennis Del Mar já deixou claro que ele não tem um plano para eles, como o próprio Jack diz: “Nunca há tempo suficiente”. Como Randall Malone demonstra interesse e não cria empecilhos, Jack considera válida a proposta. Além dele estar muito machucado, ele tem a chance de viver um amor sem culpa e sem medo, como ele sempre quis. Então ele não estava mais disposto a perder oportunidades.
Como na música dos Paralamas do Sucesso (novamente): “Levante as mãos para o céu. E agradeça se um dia encontrar um amor, um lugar”.

Infelizmente, Brokeback Mountain é uma obra temporal que reforça aquela ideia de que o homem gay jamais terá a sorte em viver um amor, e que seu destino será trágico. Ao mesmo tempo que o filme te entrega micro doses de romance, você também vive o luto de quem apenas queria viver seu direito de existir e ser feliz…
Por isso, o filme teve o cuidado de mostrar um romance proibido entre dois homens, sem rótulos. Além da mensagem de você demonstrar seus amores e afetos, sempre que possível, para não se arrepender daquilo que não fez. E assim como Ennis Del Mar, você e eu falamos juntos: Jack, eu prometo…
A verdade que Brokeback Mountain não só fez história como cumpriu seu papel, deixar a arte tocar você. Como foi sua experiência com o filme? Estou curioso para saber.
Compartilhe este artigo com quem é fã do filme Brokeback Mountain, ou com aquele seu crush que gosta de compartilhar os sentimentos com filme. Quem sabe assim ele não te nota.
Até o próximo post 🙂

