Espelho Reverso – Felipe Zobaran | Boa Sorte com teu Armário

Como o autor usa a arte para falar sobre medos, culpas e estratégias em crescer um homem gay sem um acolhimento pedagógico e familiar.

Dandy Souza

03/03/2026

Espelho Reverso é uma obra que prova que não existe uma fórmula exata para falar sobre vivências LGBTQIAPN+. Afinal, é preciso ousadia para tirar o leitor da zona de conforto e dissecar em cortes cirúrgicos, uma das camadas da homofobia na sociedade. Felipe Zobaran não só te faz mergulhar nessa anatomia desconfortável, como ele coloca o dedo na ferida de como é crescer um homem gay, muita antes de se entender quem realmente você é.

E vou logo dizendo, o autor não foi nenhum pouco inocente em Espelho Reverso viu? Só o fato de meses antes de seu lançamento, ele preparar o terreno em suas redes socias, com afinco, já mostra que ele sabia o que estava fazendo. Inclusive, foi um reels dele analisando o livro O Bom Crioulo (1895) de Adolfo de Caminha, que eu pude conhecer seu trabalho — finalmente o algortimo do Instagram fazendo algo útil, gosto assim.

Aqui Felipe Zobaran traz uma provocação bastante pontual sobre o clássico. Conforme sua análise, ao mesmo tempo que O Bom Crioulo é uma obra revolucionária, ela também é carregada de racismo, preconceitos e estereótipos. Afinal, trazer Amaro como protagonista, um homem negro, ex-escravo e homossexual foge de tudo aquilo que havia sido publicado em termos de romance.

O problema é quando essa narrativa reforça a ideia que o único destino de um homossexual é a morte por um crime passional, algo extremamente tendecioso. Isso quando não é vítima de homofobia como acontece em O Segredo de Brokeback Mountain (2005). Inclusive, é importante lembrar que o filme foi vítima de boicote por membros da academia do Oscar em 2006. Infelizmente algo muito comum na cultura pop até 10 anos atrás — tudo será lembrado, nada será esquecido.

E ainda neste mesmo reels, Felipe Zobaran fala da importância de mais histórias LGBTQIAPN+ explorarem outros gêneros literários e subverterem esse arquétipo trágico e injustiçado — quebrando de vez essa maldição na literatura e na cultura pop. Será que veio aí a Anitta do Marketing literário? Pelo visto sim, vamos aguardar seus próximos lançamentos.

Não vou mentir viu? Por alguns instantes eu acreditei que Espelho Reverso era um romance aquileano. E para minha surpresa, tinha em mãos um ensaio sobre comportamentos duvidosos de um LGBTQIAPN+. Sabe aquele meme de finalmente histórias de gays trambiqueiras? Foi mais ou menos essa minha reação, só que ao invés de trambiqueira a gay praticava homofobia, para não ser alvo de perseguições na escola. Que tal?

Não me senti isento de culpa, mas estava protegido. Limpo. Naquele tempo, a nossa camuflagem valia ouro: eu precisava me defender. — (Espelho Reverso, Felipe Zobaran)

Brincadeiras à parte. O livro tem um propósito muito claro, entregar ao leitor o sabor amargo da violência física e psicológica que um LGBTQIAPN+ sofre na infância. Como já não bastasse ter que lidar com a sociedade te excluindo e te transformando em um vilão, ainda ser penalizado por ter reagido a um dessas violências, é algo frustrantes, principalmente quando vem do sistema pedagógico nas escolas, que deveriam combater.

Um destaque que merece atenção é a narrativa não-linear presente no livro. O fato da história alternar entre 2010 e 2020 mostra o quanto conquistas alcançadas do movimento LGBTQIAPN+ não são respeitadas. E olha que em 2019 a homofobia se tornou crime equiparado ao racismo, inafiançável. Mas como a justiça falha no cumprimento da lei, muitos resolvem adotar estratégias de sobrevivências, algumas duvidosas — como ser homofóbico com a prórpia comunidade.

Éééé… filhote. Como diz dona Jura: Não é brinquedo, não. Essa leitura não só mexeu comigo, como trouxe à tona algumas vivências de minha infância e adolescência como solidão e outros conflitos, além de outros questionamentos como: O que podemos fazer para interromper esse ciclo radioativo? Como ajudar um jovem LGBTQIAPN+ entender que não existe nada de errado com ele, e sim com a sociedade?

Vale lembrar que o artigo a seguir não contem spoiler, viu? Então fique traquilo porque vou apenas trazer algumas reflexões que o livro aborda de nosso cotidiano. Caso você tenha lido, apenas ficará mais fácil de entender tudo aquilo estou falando aqui. Tudo bem?

Vem comigo, porque nossos Ensaios de Devaneios Objetivos tá on!

Espelho Reverso | Foto autoral do blog: Kindle indicando o tempo restante de leitura. Em cima de uma caderno com anotações | Dandy Souza
(Foto Autoral: Dandy Souza | Bastidores do Artigo)

Espelho Reverso – Felipe Zobaran | Os Reflexos da Homofobia

Você já parou para pensar que quando alguém se entende como um LGBTQIAPN+, esse processo acontece de forma brusca e violenta? Primeiro porque os adultos já colocam você dentro de um armário cheio de julgamentos e performances, sem ao menos você entender direito o que está acontecendo.

O problema desse enclausuramente repentino é a descoberta solitária sobre sua identidade, sem uma rede de apoio. Um exemplo interessante, que o livro menciona brevemente, é o consumo de pornô gay. Uma vez que um homem gay não tem ninguém para conversar sobre sexualidade, tem o pornô como sua única referência de contato íntimo entre dois homens. Não faz a menor ideia de que tudo não passa de uma performance, assim como o cuidado com a saúde sexual que os atores têm antes de gravarem.

Muitas vezes, essa falta de direcionamento, causa um choque de realidade de como é uma transa de verdade, algumas vezes, sem proteção, sem respeito aos limites e sem consentimento. Só quem viveu sabe como é descobrir um caminho apanhando, cheio de julgamentos e que afeta sua percepção sobre o mundo, relacionamentos e afetos.

Outro exemplo que o livro aborda, é sobre os efeitos dos aplicativos de relacionamento. O que antes era uma ferramenta para otimizar os dates LGBTQIAPN+, com o tempo se tornou um espaço inseguro e, até mesmo, insalubre mentalmente. Quando Rodrigo reisntala Grindr para “tentar algo mais uma vez, e ver no que dá”, reflete aquele looping que muitos homens gays se submentem para fugir da solidão como: ghosting, prints não autorizados de suas fotos, nudes não solicitados e críticas ao seu corpo. Se você já passou por isso, sabe o quanto é cansativo esse processo.

Nascia ali a culpabilização do meu prazer, algo que me acompanharia por tantas e tantas noites dali para frente. — (Espelho Reverso, Felipe Zobaran)

E abrindo um parêntese aqui, eu lembrei de um vídeo do Marcel Nadale, do Canal Gay Nerd, que ele questiona como o sexo é usado nas relações hétero e homo. Segundo ele, muitos homens heteros usam o afeto para conseguir sexo, enquanto alguns homens gays usam o sexo para conseguir um afeto. Foi algo que explodiu minha mente ao ouvir isso, porque faz todo sentido, principalmente quando se fala do medo da solidão do homem gay.

Você percebeu o quanto este assunto tem muito pano para manga? Outro problema que infelizmente acontece com frequência nestes aplicativos, é a violência sexual. Muitas delas causadas porque o cara não foi honesto suficiente em sinalizar seus fetiches, e quer realizá-lo de qualquer jeito.

Inclusive, existem casos que quando o cara do date percebe que o outro não quer, acaba fazendo um gaslighting, chantagens e manipulações, para conseguir o que quer. Além de ser um comportamento bizarro, saiba que isso é crime. Infelizmente isso acontece tanto com uma pessoa inexperiente, quanto experiente, viu? Então fique antentos as Red Flags. Quanto mais gente falar sobre isso, mais a gente conscientiza e evita que outras pessoas caiam em ciladas, principalmente aquelas que encontram-se vulneráveis fisicamente e psicologicamente.

A verdade é que isso é a ponta do iceberg. Muitas vezes a origem dessas violências vem de quem deveria garantir a segurança e apoio de uma criança LGBTQIAPN+. Como o sistema pedagógico que falha em acolher e dar suporte as vítimas. Bora ver como Espelho Reverso ilustra esse problema?

Espelho Reverso | Foto autoral do blog: uma mão segurando o livro no Kindle em cima do caderno com anotações. Cenário escuro com luz neon azul | Dandy Souza
(Foto Autoral: Dandy Souza | Bastidores do Artigo)

Homofobia no Contexto Escolar | O Armário como Pedagogia da Violência  

Não é de hoje que algumas escolas possuem históricos de bullying e não tomam as devidas providências. Isso quando não decidem culpabilizar as vítimas, ou jogar tudo para de baixo do tapete, e serem coniventes com o crime. Como o livro é recheado de provocações, uma que se detaca aqui é sobre a pedagogia da violência. Onde instituições não levam à serio os casos de bullying e, muito menos, os inquéritos vão adiante.

Como Rodrigo possui vários bloqueios pessoais e carrega uma incessante angústia no peito, enteder sua origem torna-se uma questão de honra, para tentar prosseguir com um mínimo de qualidade de vida. Sendo assim, ao entregar uma narrativa não-lienar, Espelho Reverso resolve dissecar um dos locais resposnsáveis pelos maiores traumas de um LGBTQIAPN+, a escola.

O ano é de 2010, e um dos maiores pesadelos de um adolescente LGBTQIAPN+ é ter sua liberdade ameaçada, só por estar vivendo sua identidade. Como já não bastasse carregar o fardo da exclusão e rejeição por outros alunos, ainda ter que ouvir da direção que você precisa ser forte e não ligar para o inferno que está vivendo, é para acabar com o psicológico de qualquer um — isso para não dizer outra coisa.

Quando o livro alterna seus capítulos para 2020, nos primeiros meses de Lockdown da pandemia de covid-19, você tem a noção dos efeitos do monstro que se encontrava adormecido, e vem esmagando sem pena a sua saúde mental. É durante o ensino médio que você descobre o quanto a direção do colégio de Rodrigo ignoram os vários pedidos de socorro de Sergio e suas red flags.

Quem lembra do caso de Carlos Teixeira, de 13 anos, aluno da Escola Estadual Professor Júlio Pardo Couto, de Praia Grande (SP), que faleceu após ser agredido por um grupo de alunos no banheiro da Instituição. Por mais que o crime não estivesse relacionado a homofobia, o garoto era uma vítima frequente de bullying em 2024. 

Vale lembrar que o pai chegou a comunicar a direção do escola e cobrava providências, mas todas eram completamente ignoradas, até resultar na morte do garoto. Isso demonstra o quanto o sistema pedagógico apresenta falhas no acolhimento e suporte às vítimas de violência nas escolas. Inclusive, até o momento desta publicação, o caso de Carlos Teixeira ainda não foi concluído.

É neste cenário de impunidade que o leitor conhece dois lados obscuros de viver sua sexualidade nas escolas: uma se escondendo e reforçando o bullying, outra apenas vivendo um dia de cada vez, contando os dias para que esse pesadelo acabe e possa começar sua vida em outro lugar.

É nesse momento que arte torna-se uma ferramenta de sobrevivência. Além de ser uma válvula de escape e um instrumento de conexão com seu eu, ela pode assumir um papel de destaque tanto no campo profissional, quanto em um hobbie. Seja na música, na literatura, no artesanato, na pintura, ou qualquer prática que expresse sua forma de deixar sua marca no mundo.

A literatura era a única coisa com a qual ele parecia ter prazer na escola, compartilhávamos isso de fato. — (Espelho Reverso, Felipe Zobaran)

Não vou mentir que esse foi um tópico que me deixou bastante reflexivo. Durante a leitura eu me peguei relembrando o período que fui vítima de bullying e ainda carregava a culpa por tudo que estava vivendo. É nesse período que a pintura e a cultura pop se tornaram minha vávula de escape. O mais curioso disso tudo é ver o quanto ela reflete em meu trabalho como designer gráfico e na criação de conteúdo. E você? Qual válvula de escape de sua infância se tornou seu hobbie ou seu trabalho? Bora refletir juntos?

Um outro questionamento que Felipe Zobaran levanta em seu livro é o quanto a relação familiar é essencial na vida de um jovem LGBTQIAPN+. Ao mesmo tempo que ela pode assumir um papel de suporte, ela também pode assumir um papel insalubre, ao criar culpas baseadas em sua identidade e sexualidade. Essa dinâmica não apenas afeta a saúde mental como interefere em seu comportamento.

Um exemplo disso é a forma como Rodrigo descobre sua atração pelo corpo masculino, durante sua adolescência. Como ele passou boa parte da infância vendo seus pais se posicionando de forma preconceituosa e homofóbica, ele sentia-se culpado quando fantasiava algo mais íntimo com outro homem. Muito diferente de Sergio, que tem o apoio e o suporte de sua mãe, além de ser uma figura presente.

Será que muito daquilo que você é hoje tem a ver com sua infância? Dependendo do ambiente que você cresceu, como isso afeta sua percepção de mundo, em suas escolhas e seus afetos? O que acontece quando o prazer sexual de um LGBTQIAPN+ é demonizado pela sociedade? Bora entender como o livro aborda esse assunto.

Foto autoral do blog de uma citação no caderno e um trecho do livro no kindle | Dandy Souza
(Foto Autoral: Dandy Souza | Processo Criativo do Artigo)

Espelho Reverso – Felipe Zobaran | A Culpabilização do Prazer de um LGBTQIAPN+

Atire a primeira pedra todo aquele homem gay que nunca foi chamado de promiscuo na vida, ou ouviu que IST’s é o seu destino… Quem nunca né? Como já não bastasse carregar essa letra escarlate no peito, ainda ter que lidar com a demonização de nossa sexualidade o tempo todo. É preciso ter muita força e autoconsciência para não cair em tais falácias.

É neste momento que perfis como do Dr. Vinícius Borges (Dr. Maravilha), são importantes em nosso cotidiano. Além de ser uma utilidade pública, toda e qualquer desinformação cai por terra. Até porque toda pessoa que tem vida sexual ativa está vulnerável a adquirir uma IST, inclusive uma pessoa hétero. Por isso, quanto mais se falar sobre saúde sexual, mais pessoas se cuidam com responsabilidade e conhecem seu corpo.

E vamos ser sinceros? Se tem alguém que é mais engajado e tem um cuidado com a saúde sexual, esse alguém é a população LGBTQIAPN+. O que não deixa de ser um feito. Afinal, vivemos em uma sociedade que dificulta o acesso à infromação, principalmente aos jovens que crescem ouvindo que “IST’s são um castigo de que não segue um padrão ditado pela hetereronormatividade.

Prometeu não repetir aquela conduta, pediu por um perdão em que nem acreditava. Envergonhando-se de quem havia se tornado. — (Espelho Reverso, Felipe Zobaran)

Então quando você vê Rodrigo se culpando por ter adquirido uma IST’s, após trocar favores sexuais por ser vítima de chantagem, você percebe o quanto falar sobre saúde sexual salva vidas — tanto para um jovem, quanto para um adulto LGBTQIAPN+. Isso não apenas conscientiza, como também ajuda na proteção e, até mesmo, na busca pelo tratamento correto, além do amparo jurídico.

Vale lembrar que chantagem por favores sexuais é crime no Brasil, viu? Ela é enquadrada no crime de extrosão e pena pode ser de 4 a 10 anos de reclusão. Mais uma vez a arte traz um assunto delicado em pauta, para ilustrar como pessoas vulneráveis emocionalmente e mentalmente, tornam-se uma presa fácil de pessoas com caráter duvidoso. Além de bizarro, perfis como esse são capaz de fazer a vítima acreditar que merece passar por tudo isso, principalmente por não ter uma rede de apoio que ajude a abrir seus olhos.

Agora você entende porque eu digo que Espelho Reverso é um ensaio provocativo sobre os desafios de um LGBTQIAPN+ na sociedade, desde infância? E o mais curioso é que o livro aborda diversos temas delicados, sem falar diretamente sobre eles. Mas através de vivências LGBTQIAPN+ reunidas para desenvolver a empatia do leitor, provando o quanto a arte transforma conversando com a nossa realidade.

Imagem do livro no kindle, em formato de Pin (post para o Pinterest) | Dandy Souza
(Salve este post no Pinterest e leia sempre quando quiser)

Não foi à toa que este livro ficou no meu 1° lugar de melhores leituras de 2025. A leitura foi um processo terapêuto para mim, ao reviver experiências do passado. Por mais que Rodrigo tenha escolhido caminhos diferentes, temos conflitos e vivências em comum. Obrigado Felipe Zobaran por me fazer enxergar através do Espelho Reverso, e mostrar que o sabor amargo também carrega histórias e identidades.

E você já leu Espelho Reverso de Feliepe Zobaran? Como foi sua experiência com o livro? Você reviveu algo do passado ou se revoltou com o protagonista? Me conta que estou curioso.

Compartilhe este post com aquele amigo que gosta de livros que tiram o leitor da zona de conforto e até mesmo com aquele crush que gosta de livros LGBTQIAPN+, quem sabe ele não te nota?

Até o próximo post 😉

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Dandy Souza

Empreendedor digital e Estrategista de Conteúdo (Copywriter). Criou o blog Descomplicando Estratégias Digitais, com o objetivo de compartilhar boas práticas de marketing de conteúdo, focada em empreendedores que precisam ter uma presença digital marcante.

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